Etnografia

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:: Cultura agrária 

'Na serra tudo tem uma medida cósmica que não assusta o serrano, pois com ela se habituou a conviver. Era assim então, como já fora no tempo dos antepassados de há milhares de anos. No amanho da terra, no domínio da arte venatória, na forma como rega a belga, na aceitação da vivência comunitária, até no vestuário, os costumes do serrano mantinham-se quase inalteráveis.' (H. Almeida, 2003)

'Na madrugada há carros de bois, arados pousados sobre jugos, homens de sachola ao ombro, mulheres de capucha com uma corda para o mato, maçadoiros com linho, pastores ganhando o monte com o rebanho.' (Beira Alta. XLIV, 1985). 

Os socos calcam as lamas tapando as luras que a toupeira abriu, e a tamanca há-de tocar na calçada. 
'Os homens que conduzem as vacas aos pastos ou ao trabalho dos campos não o fariam de uma forma mais delicada se conduzissem pessoas pela mão.' (I. N. Pignatelli, 1998)

A ceifa, dita segada, começou ordinariamente entre o S. João e o S. Pedro, estendendo-se até ao meado de Julho. A debulha aqui se chama malhada, e demora até Agosto. 'Há malhadas de ajuste e malhadas por conta do lavrador. Estas, as mais comuns, são feitas quase sem salário. Vai-se à malhada do vizinho para que ele venha à nossa. (M. F. Gama, 1940) Assentam-se os dias como quem conta a vez no forno, no moinho e no eirado. Onde a natureza bravia quer dura a economia da sobrevivência ripostam as solidariedades vicinais por expedientes de peculiar comunitarismo. 

'Campos de pão e de esperança a amarelecer desde Maio, batatais em regada fresca, o feno cortado nos lameiros onde as vacas fazem tilintar os chocalhos, nabais resistindo ao codo, um castanheiro bravo, poucas nozes, cerejas e não há mais mimos para este serrano de aspecto rude e alma de criança' (Beira Alta. XLIV, 1985).

Mantidos para guardar o cereal excedente, os espigueiros, ou canastros, pontuam de forma característica a paisagem humanizada do Alto Paiva. Encontramo-los dispersos, mas em Pendilhe e Fráguas a sua presença acentua-se. Aqui, em relevos superiores propícios à exposição do sol, dezenas de espigueiros, e armazéns de feno - os palheiros -, 'põem ao sol o ventre amarelo da terra, o centeio e o milho. É um lugar de pão contido entre paredes de materiais nobres, a pedra e a madeira. Das portas mais francas dos armazéns com fechaduras de cravelhas às portas mais estreitas dos espigueiros, e as eiras das malhas. A fartura ali guarda-se no alto' (I. N. Pignatelli, 1998).

Nas eiras comunais, e ao redor daquelas construções talhadas pelo homem do campo, amontam as louras medas de feno que servem para apascentar o gado durante os rigores da inverneira. Enfaixadas no topo à maneira de rolhas, recebem o apodo de rolheiros.

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:: Pelourinhos

Símbolo das velhas liberdades concelhias, da prerrogativa de justiça própria e da fuga às exacções senhoriais, ao mesmo tempo desdenhado espaço de inflicção pública das penas devidas por crime, não distantes das forcas e cadeias que só a toponímia lembra, os pelourinhos municipais são de Interesse Público, com raízes no século X

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Pelourinho de Alhais

O pelourinho é um curioso monumento do século XVI a que faltam os tradicionais degraus e que, em substituição, assenta num enorme bloco de granito. É interessante notar-se que houve o cuidado de apontar cada uma das faces do prisma que o remata para um dos pontos cardeais. Foi considerado Imóvel de Interesse Público em 1933.

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Pelourinho de Fráguas

O pelourinho assenta em cima de um usual pedestal de degraus. Expressivo é o remate de forma quadrangular onde cada canto corresponde a um dos pontos cardeais. Em cada face e em cada ângulo esculpiu-se uma grosseira e saliente figura antropomórfica de olhos fechados, num total de oito que têm o nome de mascarões. Estas figuras representavam os réus condenados à pena capital. Deve datar-se do século XVI e foi considerado Imóvel de Interesse Público em 1933.

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Pelourinho de Pendilhe

Rodeado por casa de acentuado carácter rústico, o pelourinho do século XVI, é um monumento simples sem grandes aparatos artísticos. Está assente em três degraus lisos e tem remate de forma cúbica, sem capitel, e com as quinas ligeiramente elevadas.

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Pelourinho de Vila Cova à Coelheira

É um esbelto monumento finamente talhado, que em 1933 foi considerado Imóvel de Interesse Público. O que o torna especialmente artístico é o seu muito trabalho remate, onde se esculpiram mascarões, aos quais vulgarmente se atribui o sentido de mostrar a condenação dos réus às justiças concelhias.


:: Engenhos e travessias 

Junto a açudes e levadas do Paiva e Côvo pontificam moinhos e pisões. As correntes emprestavam a força para mover o pisão de Fráguas a apertar o burel – que se veste na Nave e terras altas do Paiva e Vouga –, e as mós da farinação de Vila Cova-à-Coelheira, Fráguas e Vila Nova de Paiva. Como fosse o rio mais caudaloso, as povoações do vale do Távora costumavam, no Verão e Outono, vir moer ao Paiva. Agora parados, se não para lições de etnologia, os engenhos ‘parecem esperar o moleiro que, outrora, à cabeça ou no burrico, trazia o milho, o centeio e... as novidades das suas viagens.’ (P. Monteiro, 2001)

Entre margens, as alpondras estendem passagens a pé enxuto que tanto despertam a curiosidade ao incauto forasteiro como, acto contínuo, a irreverência dos mais novos, assim à maneira de ritos de transição, e de retorno. Outras travessias, como a Ponte das Tábuas, que é de pedra, erguida em Alhais sob um pego escuro e largo ‘sem fundo’, associam a crendice popular. ‘Deve ser ali a residência dos pais da família-truta’. (M. F. Gama, 1940) É a jusante desse lugar, na Levada da Azenha, que se realiza a largada de trutas para os concursos de pesca.

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:: Habitações de ontem e de hoje 

 ‘O aglomerado rural típico constitui testemunho expressivo da relação do homem com o meio. Deambular pelas ruas empedradas e estreitas da Póvoa (Touro), ladeadas por edificações em granito, proporciona uma experiência subtraída da lufa-lufa hodierna, qual comunhão harmoniosa com a Mãe-Natureza. ‘Assim, por obra do acaso, quase espontaneamente em vez de presidir à sua fundação uma vontade inteligente e discriminativa. O acaso e insciência das coisas foram os seus arquitectos.’ (A. Ribeiro, 1963)

As construções rústicas, especialmente em Pendilhe e Póvoa (Touro), elevam da ‘pedra sobreposta, quase que sem argamassa, blocos maiores aparelhados para enquadrar janelas 
e portas, fraguedo mais miúdo e menos talhado, habilmente associado para construir os painéis das paredes. A passagem do tempo tornou a cor do granito mais escura. Apresentam-se ‘sem frestas, sem chaminé, com portal baixo, piso térreo, colmadas umas, cobertas outras a telha moirisca’, às vezes com beiradas de lousa.

‘As janelas têm portadas de madeira, e chapeiam-nas muitas vezes com zinco.
Há montes de lenha rachada e empilhada, a secar melhor para aquecer as lareiras.
As habitações têm em geral dois pisos, o de cima para as gentes, o de baixo para as lojas e para o gado, adaptadas à actividade lavradora dos seus donos.

Têm escadas de laje, cozinhas afundadas embora de pouca altura, onde à noite as pessoas se juntam ao serão aproveitando o calor conservado pela diferença de altura entre o sitio onde fica a lareira de pedra e o sítio onde se sentam, enquanto aquecem os po-tes de caldo e da comida das gentes e dos animais.’ (I. N. Pignatelli, 1998)

O lar, ou lareira, representava o coração da casa serrana. ‘Compunha-se de uma grande lancha, tantas vezes a cobertura de um dólmen, e sobre ela assentava num dos extremos o pequeno absidíolo, que é a pilheira, em que se recolhem as cinzas e contra o qual arde o cepo’ (A. Ribeiro, 1963). O fumo vadiava pelo interior, repulsado pelo caniço, sobrecéu de ripas em que as castanhas secavam e pilavam e o enchido do porco, distribuído em salpicões, chouriços, moiros, morcelas, se tornava o fumeiro lambe-lhe-os-beiços, de sabor imortal’ (I. N. Pignatelli, 1998).

A essas construções toscas opõem-se aquelas com elementos típicos de arquitectura solarenga beirã – janelas e portais manuelinos, escadarias ladeadas por corrimões e alpendres sustentados em pilastras –, indicadores da presença de fidalguia à vista em Queiriga (família Carrilho) e Vila Cova-à-Coelheira (Ordem de Malta). Aqui assentaram Hospitalários. 

Não longe dita sinagoga recorda a permanência de uma comunidade judaica. 

Na velha Barrelas, à ilharga dos Paços do Concelho, impõe-se a Casa do Brasileiro. 

A história recente do Concelho é inseparável da emigração, pelo complexo cultural que envolve como pela intensidade demográfica do fenómeno. O primeiro destino foi o Brasil, alinhando muitos vilacovenses, na sequência da depressão económica de 1890, à procura de vida melhor e fuga ao serviço militar na I Guerra Mundial. (J. O. Pinto, 2004)

As décadas de ‘50 e ‘60 motivarão novo surto com destino privilegiado a França – sobretudo entre habitantes de Queiriga – aldeia que recebeu o epíteto de mais francesa de Portugal. Se bem que o emprego ali da ardósia local originalmente diferenciasse a aparência das construções tradicionais, são particularmente sensíveis as repercussões da emigração. Como noutras paragens, é comum ver-se entre as habitações vernáculas casas erguidas com vaidade pontuando a paisagem urbana de vilas e aldeias com uma arquitectura forte e equilibrada, uma marca de prestígio, aposta com força singular que fez das mesmas monumento-exemplo e lição sobre uma geração de heróis de quem um povo quase inteiro podia guardar histórias...’ (Beira Alta. XLIV, 1985).

Ainda hoje os períodos de férias fervilham com o regresso dos conterrâneos na diáspora, e o desenvolvimento local transporta notoriamente o seu cunho.

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